
– Boa tarde, pessoal! Sejam bem-vindes ao Programa Martírio Vespertino. Hoje vamos trazer uma breve história comovente vivida por Francia Cáfica, de Criciúma, Santa Catarina. (alguém no auditório fala baixinho “tinha de ser de lá”, o suficiente para todo mundo ouvir)…Pode entrar, vem cá contar o seu caso para gente, estamos ansioses…pode aplaudir, gente.
– Boa tarde, Claudete Di Deus, e muito obrigada pela oportunidade. Estou muito nervosa.
– Imagina, fica à vontade. Então, conta para a gente…antes do programa você dizia que pegou covid em 2021, né?
– É isso mesmo. Eu sempre me cuidei muito…assim, faço terapia há alguns anos, desde que soube dos meus problemas de infância, tomo remédios para depressão e outras coisas para conseguir dormir. Em 2021, foi o casamento da minha filha com Raskólhnikov.
– Com quem?
– É russo, Claudete. Um homem esquisito, cometeu crimes e precisa de castigo, mas…mas eu estou bem, Claudete, graças a Deus.
– E o Covid?
– Ah tá. Bom, no casamento tinha gente demais, alguns de máscaras e outros sem. A maioria do povo sem máscara tinha um adesivo com o número 17. Era inverno e fiquei ruim na semana seguinte. Muita gripe, dor no corpo, coriza, febre, não conseguia nem me levantar.
– Nossa Senhora, Dona Francia Cáfica!
– Depois eu fui ler que tinha várias formas de pegar esse vírus e eu acho que foi de tomar no mesmo copo do meu primo de segundo grau, o Ramilet, filho do Luís da Silva, aquela angústia.
– Quentão? Caipirinha?
– Não, Claudete. Deus me livre. Não mexo com isso não. Era coca-cola. Não sei se eu falei antes, mas eu tomo um litro de coca-cola por dia. Bom, tomava, né? Desde quando me entendo por gente eu tomo coca-cola. Bom, tomava, né? Sempre foi minha bebida base. Eu até bebo água, mas coca é meu vício…e nem achava ruim, pois apesar de não fazer exercícios e não usar drogas, me fazia muito bem coca-cola. Só terminei meu Trabalho de Conclusão de Curso em Psicologia, graças a esse pretinho gostoso.
– Mas a senhora disse que toma muito remédio. Não considera droga?
– Oxe! Mas quando, Dona Claudete!
– Pessoal do auditório, remédio é droga ou não é? Quem acha que é, levanta a mão.
– Viu?! Só a metade acha que é. Bom, aí eu peguei covid e fiquei uns dois meses naquele sofrimento que só. Perdi a memória por umas semanas, foi o que me falaram, perdi o trabalho, perdi namorado, ninguém me entendia mais.
– E a coca?
– Coca? Deus me livre, não mexo com isso não, Dona Claudete.
– Mas você num falou que toma ou tomava coca-cola?
– Ah sim, coca-cola, sim…achei que era a outra coca. Onde eu estou com a cabeça? Tá vendo? ….Durante o covid mais coca-cola eu tomava. Passei a tomar dois litros por dia…comprava muito porque tinha aquela promoção para ganhar um carro e uma viagem para Disney. (“que bosta” alguém falou baixinho no auditório, mas todo mundo ouviu).
– Entendi, Dona Cáfica. E o que aconteceu depois?
– Aconteceu que vai para três anos que minha vida piorou muito. Desde a primavera de 2022, exatamente a partir do dia 25 de setembro, Dia Internacional do Farmacêutico, eu passei muito mal quando tomei coca-cola. Eu bebi naquele dia de manhã bem cedo, em jejum e senti um gosto de perfume, desses baratos da marca Jabuti. A senhora conhece?
– Conheço, mas por que em jejum?
– Eu vi uma recomendação na internet para emagrecer. Eu tô com 44 quilos acima do peso. Mas adoro comer hambúrguer de noite, viu? Com maionese.
– Gosto de perfume?
– Isso mesmo. Na primeira semana tinha sabor de Musk, na segunda de cipreste com num sei o que da marca Boticário, depois passou a ter gosto de aguarrás, até me lembrava um perfume azul da marca Natura.
– Que esquisito! E você continua bebendo coca?
– Nada. Parei. Faz 3 anos que não bebo, aí é que entrei em mais depressão e agora estou tentando achar tratamento, pois sem coca num vivo, não dá.
– Ô meu Deus…vamos ver como podemos te ajudar. Venha aqui e vamos brincar aqui no Painel da Sorte. Você tem três chances. Vai dizer um número de cada vez e vamos ver o que tem reservado para você em cada número atrás de cada quadradinho ali ó. Tá vendo? Tem 10 quadradinhos, um deles é um carro e outro você pode ganhar R$ 10.000. Acho que vai ajudar no tratamento, né?
– Oxe se num vai!
– Primeiro número. Diz aí.
– 1.
– Ai que pena…nada. Diz outro, ainda tem mais duas chances.
– 8.
– Tem certeza que é esse número? Não costuma trazer sorte.
– Tenho sim, é do infinito invertido, ganhei no bicho em 1997 com o 8 e no bar do Seu Quixote a coca-coca de 600 ml custava R$ 8. Bora lá!
– Vamos ver, vamos ver…Ahhh que pena! Nada de nada. Última chance. Auditório, bora jogar aquela energia positiva para Dona Francia Cáfica ganhar um carro ou R$ 10.000 para ajudar no tratamento dela. Ela veio de Santa Catarina, tem problemas psicológicos sérios desde que parou de tomar coca-cola devido ao Covid. Tem tido insônias e quando dorme tem pesadelos, todos parentes se foram de perto dela, ficou apenas um gato e um papagaio mudo preso numa gaiola. Vamos lá! Pense bem no número. Vai!
– 12.
– Só vai até 10…1 e 8 já falou. Só pode ser 2, 3, 4, 5, 6, 7, 9, 10.
– 3, então.
– Tem certeza? 3 não é um número bom.
– Tenho sim, três é a quantidade de remédios que tomo para dormir. De manhã tomo oito e depois do almoço mais dois. Quando eu tomava coca-cola eu tomava metade disso tudo.
– Vamos lá, então. Vamos virar o quadrinho e torcer. 1, 2, 3 e já!
A plateia fica atônita, espantada, em choque. A apresentadora Claudete Di Deus finge não ter visto o que viu no quadradinho do número 3 e coloca a mão na boca tentando demonstrar assombro. A ajudante de palco liga para o 192 pedindo uma ambulância. Dona Francia Cáfica está desmaiada no chão com um pote que se abriu ao cair de seu bolso e espalhando remédios de várias cores por todo o palco do programa Martírio Vespertino. O prêmio do quadradinho número 3 era um ano grátis de coca-cola e cinco frascos de perfumes importados.

