
Antes de arroz com feijão, antes de farinha de trigo, antes de nomes como “Brasil” ou “América do Sul”, o que se comia por aqui?
Muito antes do Brasil ser chamado Brasil, já existia por aqui um sistema alimentar sofisticado, adaptado ao clima, ao solo e ao ciclo das florestas. Quem prova isso são os Kayabi, povo indígena com saberes que atravessam gerações e se manifestam nos gestos, nos sabores e nos modos de plantar, colher, preparar e partilhar.
Não havia geladeira. Nem supermercado. Mas havia fartura. Comida que brotava da terra, corria nos rios, caía das árvores e fermentava no tempo certo, nas mãos e na memória dos povos originários, como os Kayabi.
No coração da cultura alimentar, antes de o Brasil existir, estava a mandioca, um ingrediente ancestral. E não é uma só. Os Kayabi conhecem diversas variedades, cada uma com um sabor, textura e funções distintas.
A mandioca brava exige paciência e técnica: é ralada, prensada e deixada descascar. Dela vem o tucupi, de aroma intenso, e a massa que vira farinha ou beiju.
Já a mandioca mansa vai direito no fogo. Mais simples, mas igualmente simbólica.
O beiju, crocante por fora e macio por dentro, é feito com massa de mandioca peneirada sobre chapa quente e se parte com as mãos. Já o mingau de carimã, feito com mandioca fermentada e seca, é espesso e aromático.
O peixe é pescado de forma coletiva e assado em folhas sobre a brasa. Não leva sal. O sabor vem da lenha, da pele tostada e da água do rio. Já o mel das abelhas nativas é memória líquida: adoça receitas ou é consumido puro. Coletá-los exige silêncio, atenção e escuta da floresta.
As frutas seguem o tempo certo. O som ao caírem, o canto dos pássaros, a cor das folhas indicam a hora da colheita. Não é antecipado. O alimento é parte do ciclo. Ele vem, se oferece e retorna à terra.
Nada se perde. A casca da mandioca pode virar bolo, mingau ou ser usada em novos preparos. Já suas folhas, cobrem o alimento no fogo, conservando sabor e calor. Até a cinza do fogão retorna à terra como adubo, fechando o ciclo com cuidado e intenção.
Os utensílios também são produzidos com o que a natureza oferece e com o que cada estação permite. Colheres de madeira, peneiras de palha, cuias de frutos secos, potes de barro moldados à mão. E nada é descartável. No saber Kayabi, o que sobra sempre encontra um novo ciclo para recomeçar.
Mas não é só o alimento que importa. Importa o modo como ele se conecta ao território. À escuta da mata. Aos rituais de cuidado. Às conversas em volta do fogo. Os utensílios nascem da floresta. As cinzas voltam à terra. Comer é mais do que nutrir. É manter vivo um sistema completo de conhecimento e vínculo com a natureza.
Muito antes de o Brasil existir, já havia um movo de se alimentar que unia corpo, território e identidade. Assista o documentário sobre a alimentação dos povos Kayabi, feito com o apoio da Embrapa, vai além de reconhecer o saber sofisticado dos povos originários. Ele amplia o próprio fazer modo de fazer ciência.
Fonte: embrapa



